Em BH manifestação une o povo e os movimentos populares

Manifestações em Belo Horizonte levam 200 mil pessoas às ruas

Além das tarifas, pautas como a melhoria dos serviços públicos e a luta pelo piso salarial dos professores da rede estadual também estiveram presentes

24/06/2013

Maíra Gomes

de Belo Horizonte

 

Totalizando mais de 200 mil pessoas, jovens, mulheres, homens e crianças de Minas Gerais coloriram as ruas de Belo Horizonte no último sábado. Durante o dia todo, os manifestantes protestavam por igualdade e reformas no país.

A manifestação teve início por volta das 10h da manhã, com concentração na Praça Sete de Setembro, coração da cidade. As pessoas presentes desenhavam cartazes, distribuíam adesivos e panfletos e ecoavam palavras de ordem pedindo melhorias nos serviços públicos e respeito à democracia.

A estudante Poliana dos Santos, 22, estava lá desde cedo. “Este é um momento único que estamos vivendo. Temos nossos direitos garantidos pela Constituição e devemos lutar por eles”. Ela critica a redução nas tarifas de ônibus oferecida pelo prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda.  “Tirar só cinco centavos da passagem e dizer que terão que cortar investimentos é balela, só cai nisso quem é muito alienado e vai na onda. Porque quando os políticos aumentam os próprios salários não há corte de gastos, mas pra tirar centavos tem corte”, questiona a estudante.

 

Marcha colore às ruas e avenidas de BH

Por volta das 14h  da tarde, a Praça Sete já tinha mais de 60 mil pessoas. Integrantes de organizações, partidos e movimentos sociais auxiliaram na organização dos manifestantes para dar início a uma longa marcha rumo à Lagoa da Pampulha, onde se uniriam aos educadores da rede estadual. Em uma verdadeira aula de organização, os jovens realizam uma consulta aos manifestantes sobre o momento de realização da marcha. A decisão foi por dar início à caminhada.

O caminho era longo, mas isso não desanimou os participantes. Ainda no Complexo da Lagoinha, entrada para a Avenida Antônio Carlos, o número já estava acima de 100 mil pessoas. A manifestante Romã Rodrigues, 27, chegou às ruas logo cedo. Ela conta que nunca havia participado de manifestações, mas acredita que os jovens devem lutar por um Brasil diferente. “Lutamos por educação e saúde. Ainda mais para este pequenininho aqui no meu colo. Faço questão de trazer ele comigo, porque queremos um futuro melhor para nós e para ele também”. Ela acompanhou a manifestação com seu filho de um ano e nove meses. Romã afirma não ter medo de participar, pois a manifestação está bastante organizada. Ela acredita que não há razão para que os partidos não participem, já que são experientes na luta. “Quem sabe eles nos ajudem a conseguir alguma coisa, já estão ajudando na manifestação”, aponta.

O manifestante e militante do Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD), Vinícius Moreno, conta que a participação dos movimentos sociais na manifestação deste sábado se deu de forma organizada, após uma reunião de unidade. “Nós dos movimentos sociais acreditamos que a falta de organização nas manifestações pode facilitar vandalismo e ações despolitizadas, como a cobrança de pautas que não fazem parte da luta por direitos. O exemplo é que no início da semana vimos cartazes contra as cotas, o que seria um retrocesso, já que foi um direito conquistado após anos de luta. Podemos ajudar a organizar e politizar o povo”, afirma. O militante acredita que as mobilizações nacionais demonstram o início de um processo com perspectiva de luta. “Uma geração que não tinha passado por esse momento histórico e hoje está tendo essa experiência e congregando várias idéias comuns, várias perspectivas de futuro e mudança para o nosso país”, conclui.

 

Em BH, pautas fortes são as locais

As cores das diversas bandeiras de organizações e movimentos sociais, bem como de alguns partidos, coloriam a avenida e podiam ser vistas ao longo de muitos quarteirões. Também compunham a bela fotografia os milhares de cartazes, marcando a diversidade garantida pela democracia.

Dentre as principais pautas presentes nos muitos cartazes e faixas, estavam: 10% do PIB para a Educação; contra o projeto de lei da Cura Gay, contraditoriamente apresentado pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos Marco Feliciano; pela Democratização da Comunicação; contra o Ato Médico, que já está na instancia de votação pela presidenta Dilma; contra o Estatuto do Nascituro; e muitas outras.

Nas ruas de BH, além das pautas nacionais, estiveram presentes as reivindicações regionais. Pelo piso salarial dos professores da rede estadual de Minas, que não é cumprida pelo governador Anastasia; contra a política de remoções violentas às ocupações, que chegou até a usar “Caveirão” contra as famílias, implantada pelo prefeito Marcio Lacerda; pela volta da feira do Mineirinho, que retirou milhares de artesãos do seu local de trabalho em razão da Copa de 2014; por uma redução significativa das tarifas de ônibus, já que o prefeito apresentou a redução de apenas cinco centavos; pela ampliação da rede de metrô, promessa de campanha não cumprida; e mais.

Ao longo do caminho, foram ouvidas palavras de ordem que ecoavam por quarteirões. A criatividade não teve limite, e a diversão tomou conta das ruas. Frase como “Doutor, ou não me engano. Quem tá doente é o Feliciano”, “Dança Lacerda, dança até o chão. Chegou em BH a revolta do busão”,  “Que coincidência, não tem polícia, não tem violência”, e “Levante-se, Levante-se. Pela Educação”.

 

Solidariedade entre manifestantes e apoio de moradores

O sol quente e a longa caminhada foram aplacadas com o apoio de moradores e comerciantes que, ao longo da avenida Afonso Pena, abriram suas portas sem medo para ajudar quem ali passava. A moradora Eliana Borges levou uma mangueira até a rua para encher as garrafas de água das famílias sedentas. “Eu não tive medo. O que está acontecendo é muito bonito e essa é minha forma de apoiar”. Postos de gasolina e até mesmo o Corpo de Bombeiros cederam também à alegria da manifestação.

Por ter durado o dia todo, muitos não conseguiram comer adequadamente durante a passeata. Mas quem havia levado um lanche, como frutas ou biscoito, fazia questão de repartir.

A advogada Vilma Barasch, 63, acompanhou toda a caminhada. Ela faz parte de um grupo de advogados da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, que se voluntariou para auxiliar a manifestação. “Nosso objetivo é estar presente se houver uma contrariedade. Temos um ponto de apoio para mandar advogados quando for necessário”, declara.

Os quase dez quilômetros manifestação realizaram uma grande “OLA”, onda realizada tradicionalmente nos estádios de futebol, demonstrando a força da organização, união e luta.

 

Violência policial

Quando os já quase 200 mil manifestantes chegaram no cruzamento com a Avenida Abrahão Caram, que leva até o estádio do Mineirão, o clima de tensão tomou as ruas. Na entrada da avenida, estava montado um forte bloqueio com a Polícia Militar, Guarda Nacional e a Cavalaria, para impedir que a manifestação chegasse até o estádio, onde acontecia jogo da Copa das Confederações entre o Japão e México.

A marcha passou direto pelo cruzamento, seguindo em direção a avenida Santa Rosa, sentido Lagoa da Pampulha. No entanto, cerca de cinquenta pessoas, que não estavam participando da marcha e suspeitos de estarem infiltrados, conseguiram levar alguns manifestantes para o local do bloqueio policial.

Antes mesmo que estes fizessem qualquer tipo de investida contra a PM, esta iniciou um forte ataque contra os manifestantes, com spray de pimenta e muito gás lacrimogêneo.  Rapidamente, os presentes correram, iniciam um tumulto na marcha e dividindo a manifestação. Teve início o ataque com balas de borracha, atingindo muitos manifestantes. Durante cerca de dez minutos, foram atiradas muitas bombas de gás.

O fisioterapeuta Hefrem Alves, 24, estava no local quando houve o avanço da polícia. “De longe ouvia-se os tiros das bombas de gás e começou um correria geral. Uma cortina de fumaça se espalhou por quilômetros, atingindo um raio enorme de pessoas, de maneira indiscriminada”. Ele conta que uma parte dos presentes, possivelmente os infiltrados, voltaram para o embate com a PM, enquanto os manifestantes que passaram pelo cruzamento reiniciaram a caminhada. Os que estavam atrás, segundo Hefrem, ficaram sem saber que caminho tomar, já que para seguir em frente teriam que passar pelo confronto.

A Cavalaria da PM seguiu em direção a estes manifestantes, e se iniciou um novo momento de violência. Manifestantes foram feridos com tiros de borracha e a chuva de gás continuou. A advogada Cristiane Ribeiro Marco Antônio, 31, também estava no local. “A polícia chegou com muita violência, vieram com os carros muito próximos dos manifestantes. Eles fizeram isso para dividir a passeata. Algumas pessoas se aproximaram dos carros e eles saíram e começaram a atirar”, declara. Ela afirma que a ação da PM foi inconstitucional, já que não é permitido que avancem sobre os manifestantes sem eles tenham iniciado um ataque. “A OAB estava na manifestação, fomos convocados pela presidência de Minas Gerais. Afirmo que isso não vai ficar impune, estes abusos da polícia. Eu não tenho nem palavras para o que vivi”, afirma.

Após muita correria, os manifestantes conseguiram se afastar do local, entrar em vias internas do bairro e voltar para suas casas.

Durante a violência policial, o jovem Ricardo Justino, 19, caiu do Viaduto José Alencar. Ele está internado no Hospital Risoleta Neves, onde aguarda o resultado de exames para a realização de uma cirurgia na pelve e está fora de perigo. Outros dois jovens, ainda não identificados, também caíram do local.

A luta continua forte

As cerca de 100 mil pessoas que seguiram em frente, chegaram à Lagoa da Pampulha por volta da 18h. O sol se pondo à beira da lagoa marcou a “sobrevivência” à violência policial sofrida há pouco, trazendo um pouco de beleza e tranqüilidade.

A estudante Natalia Ferreira Guimarães, 20, conta que chegou à Praça Sete às 10 horas da manhã, mas não estava cansada e sim muito emocionada. Ela participou de todas as manifestações em Belo Horizonte, e acredita que algo esta mudando. “Hoje a manifestação está muito mais organizada, as pautas perecem estar mais unidas, o povo está com mais foco. Foi muito bonito ver todos gritando as mesmas palavras de ordem, as mesmas pautas, e acreditando nisso”, conta. Natália diz que ver a juventude nas ruas lutando por seus direitos é o que mais a motiva estar ali. Para a jovem, a luta em Belo Horizonte traz uma particularidade. “Temos que derrotar esse governo neoliberal que reina aqui no estado, com o Anastasia, e na cidade, com o Lacerda. Eles são inimigos do povo, são projetos que estão do lado do empresário, da elite. Lutamos contra o lobby das empreiteiras, que fazem com que a prefeitura levante obras, destrua, e levante de novo. Aqui em BH somos duplamente explorados”, desabafa.

 

Assembleia Geral define pautas e próximos atos

Pelo menos mil pessoas se reuniram embaixo do Viaduto Santa Tereza, no centro de Belo Horizonte, para a segunda Assembléia Popular sobre as manifestações. O primeiro encontro foi realizado na última quinta-feira.

Dentre os temas debatidos, se destacou a denuncia à violência policial sofrida no sábado. Em depoimentos, membros da Polícia Militar afirmam que a confusão teria sido iniciada por manifestantes. Os presentes reforçaram que a violência partiu da própria PM, armada com bombas e balas de borracha.

Foi muito citada, ainda, a cobertura da Rede Globo aos atos. Os presentes afirmam terem percebido que ali não está traduzido o real motivo das mobilizações. “A luta é por direitos e a Globo não mostra isso. Por isso, precisamos urgente lutar pela Democratização da Comunicação”, declara Bruno Pedralva, diretor do Sindibel.

Estavam presentes na Assembléia Popular os movimentos Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (Copac), Fora Lacerda, Levante Popular da Juventude, Ames, e outros.

Foram criando dez grupos de trabalho, a fim de organizar reivindicações. Transporte; FIFA e grandes eventos; Saúde; Educação; Moradia; Polícia; Reforma Política  Minoria e Direitos Humanos; Democratização da mídia; e Meio Ambiente serão temas debatidos.

Bruno Pedralva, que representava os movimentos sindicais, vê como de grande importância a realização das Assembléias Populares. “Belo Horizonte dá um exemplo para o Brasil, a mobilização popular organizada com os movimentos sociais e sindicais é o único caminho para a conquista efetiva de direitos, já que a união faz o povo mais forte”, diz.

Foi definida a próxima quarta-feira, 26, para a próxima marcha. A concentração terá início na Praça Sete, às 12h. Junto ao Ministério Público, os movimentos procuraram a Polícia Militar na manhã de segunda-feira para um acordo que possa evitar a violência.

Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/13330

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Sobre brasilunido
Sou um dos milhões de brasileiros que atuam em defesa da DEMOCRACIA, contra os GOLPISTAS e em defesa do legado deixado por LULA/DILMA, que aliaram crescimento econômico, geração de empregos, distribuição de renda e inclusão social, levando milhões de brasileiros à ascensão social, e que continua na luta por melhorias da saúde e educação e que busca todos os avanços necessários para a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. Ainda utilizo este blog como uma opção de divulgação de serviços de utilidade pública e informações de esporte.

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